sexta-feira, 8 de junho de 2018

“NAQUELE TEMPO DO JULINHO...”
Meu primeiro dia no Julinho foi inesquecível! Eu vinha de uma escola pequena, com poucas turmas, e agora estava eu ali diante daquele mar de gente! Jovens de todas as idades, de várias tribos! Um colégio enorme e fascinante!
Fiz logo várias amizades e encontrei em outras turmas, colegas da outra escola. Nos períodos de Artes também estudávamos com outras turmas e daí surgiram vários talentos: desenho, escultura, xilogravura, violão... Tinha uma oficina de teatro e um grupo de alunos formou um grupo de dança! O colégio respirava arte! Tinha uma banda marcial e vários esportistas que disputam campeonatos. Também tinha um centro de tradições gaúchas.
Mas o que me atraiu mesmo foi o Grêmio Estudantil. Um local colorido, cheio de cartazes, poemas, música. O começo da descoberta da cidadania! Aos poucos fui me enturmando e descobrindo a tradição dessa escola na luta pelos direitos estudantis! Poderíamos fazer uma carteira que dava descontos no cinema, teatro, shows, além da passagem do ônibus. Também descobri que havia outras entidades estudantis que tinham interesses diversos dos nossos.
Eu queria participar mais da vida política, mas com apenas 15 anos teria que esperar para fazer meu título de eleitor aos 16 anos. Foi nessa época que comecei a seguir um partido que motivou minha luta. Também foi também nessa época que algumas escolas sofreram uma intervenção em suas direções, pelo governo do Estado. E nós, estudantes fomos às ruas reivindicar as eleições e a democracia.
Foi um acontecimento marcante em minha vida: eu e uma colega estávamos à frente da passeata carregando a faixa da escola. Fomos caminhando até o Colégio Parobé e junto com o grêmio deles fizemos uma corrente humana em volta do prédio para impedir a entrada do novo diretor.
Nossa surpresa foi que a própria Secretária de Educação chegou junto com a polícia de choque! Sem dizer uma palavra, ela deu um soco na aluna que estava na porta e logo em seguida a polícia começou a bater nos alunos...Tudo foi muito rápido e acabamos todos machucados e chorando de medo...Dali fomos pra uma delegacia registrar uma ocorrência e fazer um exame de corpo delito. Um advogado abriu um processo contra o Estado e a audiência ocorreu na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Infelizmente, ninguém foi punido...
Voltando aos estudos, o segundo ano foi um divisor de águas entre os alunos...alguns abandonaram a escola, outros foram trabalhar. Todos ficaram de recuperação nos exames finais, e poucos passaram para o terceiro ano.
As amizades se consolidaram, e era comum visitarmos os ex-colegas nos outros turnos. As meninas dividiam confissões, dúvidas e entusiasmo com as primeiras paixões. Muitos namoros começaram com a promessa de ser “para sempre”.
Fiz meu primeiro estágio e tive a emoção de receber meu primeiro salário! Muitos não sabiam que profissão seguir, nem se fariam vestibular...Mas todos respiraram aliviados em terminar aquele ano e o “segundo grau”. Trocas de telefones e mensagens na camiseta da escola ainda estão entre os meus pertences!
E quando toca aquela música do Nelson Coelho de Castro, eu sinto o que todo ex-juliano sente: saudades de uma época da vida onde os sonhos são tantos, que o tempo passa sem a gente perceber:
“Aquele tempo do julinho, né?
Eu jamais vou me esquecer...”
Ana Paula Freitas dos Santos (ex-aluna)

terça-feira, 29 de maio de 2018

MAIO, MÊS DAS FLORES - Lima Barreto
Tem poema meu abrindo capítulo do romance "Elefantes têm medo de formigas" da escritora paulista Marah Mends pela editora Martins Fontes, vamos fortalecer as escritoras!!!
A DOR VEIO EMBRULHADA NO PAPEL DE PRESENTE DO AMOR. Ana dos Santos
E a Escola Municipal Teutônio Vilela de Guaíba - RS realizou através das Professoras Irlanda Gomes e Eloísa Paixão o projeto "O gosto pela leitura" onde os alunos pesquisaram a biografia de escritores negros. Meu nome está lá entre Oliveira Silveira e Conceição Evaristo, e o melhor, na sala de aula que é meu local de trabalho  e realização. Esse é o poder eternizante da Literatura!



 

sábado, 5 de maio de 2018

CAROLINA MARIA DE JESUS E A “REFAVELA”
CAROLINA MARIA DE JESUS E A “REFAVELA”: A LITERATURA
PERIFÉRICA NO CURRÍCULO E A CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA SALA
DE AULA. IDENTIDADE E PERTENCIMENTO.

SANTOS, Ana Paula Freitas dos (UFRGS – Uniafro)1

Resumo
O presente trabalho relata a realização de uma intervenção pedagógica realizada junto a uma turma de
Ensino Médio de uma escola pública estadual do município de Porto Alegre, cuja temática foi a discussão sobre os conceitos de raça, etnia e empoderamento a partir de estudos acerca da escritora negra Carolina Maria de Jesus no currículo regular da disciplina de Literatura. A intervenção foi desencadeada tendo como base as proposições do Curso de Aperfeiçoamento UNIAFRO: Política de Promoção da Igualdade Racial na Escola – 3ª ed., oferecido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) através do Centro de Formação de Professores (FORPROF) no segundo semestre do ano de 2016.

Palavras-chave: Afrobetização. Carolina Maria de Jesus. Cultura Afro-brasileira. Currículo.
Empoderamento. Etnia. Lei n.º 10.639/03. Favela. Identidade negra. Literatura Afrobrasileira,
Literatura Periférica. Pertencimento. Raça.


Introdução

   A escola é “a nossa segunda casa” diz o ditado popular.
   A escola é o lugar onde os pais enviam os filhos “para ser alguém na vida”, segundo a
filosofia de vida dos mais excluídos.
   A escola ainda resiste numa sociedade capitalista e excludente.
   A escola forma os cidadãos do futuro do país, e esses alunos são, para os professores, a
esperança de uma sociedade mais humana, mais igualitária e livre!
   Livre da pobreza, do preconceito e do racismo que mata, dia a dia, um grande número de
jovens negros no Brasil.
  A importância da escola para a juventude negra é vital!
  O acesso a esse espaço de poder garante, muitas vezes, desde a única refeição do dia até
a possibilidade da entrada em um curso superior e o almejado diploma capaz de trazer o emprego
e a subsistência da população negra.
   E, sonhando alto, como todo educador comprometido, vislumbro a existência de uma
sociedade onde os negros estejam presentes em todas as classes, principalmente, na parcela
mínima que compõe a elite brasileira.
   A execução da Lei n.º 10.639/03, que trata da obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, ainda não está sendo totalmente posta em prática. Após 14 anos de sua promulgação muitas escolas ainda contam somente com ações individuais de docentes, conforme nos diz Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (2017), professora emérita da Universidade Federal de São Carlos e relatora da comissão que elaborou o parecer do Conselho Nacional de Educação para as diretrizes curriculares da proposta.
   Minhas ações individuais como docente em uma escola pública estadual localizada no município de Porto Alegre me levaram para uma jornada de pesquisa e aperfeiçoamento constante acerca desse tema que me é tão caro. Pois, sendo uma mulher negra, a primeira beneficiada desse estudo sou eu, minhas raízes, minha cultura e minha identidade afro-brasileira. Consequentemente, meus alunos de todas as etnias, têm se descoberto como indivíduos e cidadãos plenos.
   Para tal fim faz-se necessária a reforma do currículo por meio da “descolonização” das narrativas e inserção de elementos excluídos ao longo do processo de formação da História e Cultura Brasileira.

Literatura Afro-Brasileira
 
   Quando tomei posse como professora de Literatura no Ensino Médio e recebi os conteúdos programáticos encontrei um item presente em todos os períodos literários e literaturas: Literatura Afro-Brasileira. Fiquei surpresa por um lado: que bom, já está no currículo! E decepcionada por
outro: o que é Literatura Afro-brasileira? Não saberia dizer, mesmo formada em Letras.
    A memória me levou para um lugar desconfortável: a fala de meus professores na graduação, os quais insistiam em dizer que Cruz e Souza queria ser branco, que Lima Barreto era alcoólatra, e não faziam nenhuma menção ao tom de pele mulato do grande gênio Machado de Assis.
   Apagamento, silenciamento, exclusão. Era esse o aprendizado da Literatura Afro-brasileira na Universidade.
   Para contrapor esta prática de silenciamento penso que, se vamos ensinar a presença africana na cultura brasileira, temos que mostrar a história da escravidão do ponto de vista do dominado, do colonizado, do africano, que foi trazido numa migração forçada e em porões de navios “tumbeiros”; onde quem resistia à exaustiva viagem se tornava escravo e objeto de posse de alguém.
   É preciso que o professor tenha sede de conhecimento, pois deverá revisar a historiografia e buscar esse conteúdo que foi propositadamente apagado de nossos currículos. Aliás, precisamos estudar África e América Latina, pois até hoje, muitas vezes nem no ensino superior o acesso a essas disciplinas se faz presente.
   Neste sentido, antes de apresentar ao meu grupo de alunos a figura de Carolina Maria de Jesus, representante da Literatura Afro-Brasileira da década de 60 e escolhida por eles durante a Semana de Consciência Negra como referência para aprofundamento dos estudos, optei por abordarmos os literatos abaixo referidos, expoentes que nos auxiliam na tarefa de abordarmos a temática com o respeito e profundidade que ela merece.
   Como representante da poesia social e engajada contamos com a figura do poeta abolicionista Castro Alves, autor do lendário poema “Navio negreiro”. Esse poema toca a alma do leitor ao expor a violência e a desumanidade da escravidão. Castro Alves era um defensor da Abolição da escravatura. E, sobre essa questão, é necessário esclarecer ou “escurecer” a passagem da História: não foi a Princesa Isabel quem deu a liberdade aos negros. Foram os próprios negros que sempre resistiram a esse domínio de várias formas, dentre elas fugindo para os quilombos!
   Sobre isso podemos evocar os nomes de Zumbi, de Dandara e demais protagonistas dessa luta. Entre eles, inclusive, escravos indígenas e brancos pobres. O Quilombo dos Palmares foi a maior concentração de resistência negra na América Latina. Também é preciso citar os outros milhares de quilombos espalhado pelo Brasil e que hoje estão sendo reconhecidos como territórios quilombolas.
   Na escola do Simbolismo contamos com o “cisne negro” Cruz e Souza, que eleva seu sofrimento de miséria e preconceito racial através dos desejos de sublimação da matéria e de um mundo etéreo, branco, como se imagina o céu. A sua história de vida é peculiar: filho de escravos, nasceu durante a vigência da Lei do Ventre Livre e recebeu de seu senhor acesso aos estudos e à profissão de jornalista. Porém, nada disso o impediu de sofrer preconceito e racismo, o que o levou à tristeza e à doença. É considerado o maior representante do Simbolismo Francês no Brasil.
   Assim como Cruz e Souza, Lima Barreto era jornalista e um crítico do Brasil republicano. Trouxe o tema do preconceito racial para suas obras, relatando em obras ficcionais suas passagens por hospícios e o seu vício do álcool. De modo geral, abordou em sua obra temáticas sociais cujas narrativas davam protagonismo aos pobres, boêmios e arruinados. Por meio da sátira, criticava de maneira sagaz e bem-humorada os vícios e corrupções da sociedade e da política. Foi severamente
criticado por alguns escritores de seu tempo por seu estilo despojado e coloquial, que Manuel Bandeira chamou de “fala brasileira” e que acabou influenciando os escritores modernistas.
   A esses três escritores supracitados soma-se o mestre e gênio da Literatura Brasileira e Ocidental: Machado de Assis. É de suma importância a colocação de Machado na Literatura Afro-Brasileira: um mulato, nascido no Morro do Livramento - também conhecido como “Pequena África” - no Rio de Janeiro. Machado ascendeu às mais altas rodas dos intelectuais e burocratas brasileiros e teve uma vida discreta, sem grandes tragédias pessoais. Mas, se analisarmos sua obra com cuidado, veremos a crítica à sociedade escravocrata da época, que vivia como parasita da mão de obra africana. Como parte dessa sociedade, a criticou duramente com sua fina ironia.
   Além destes, junto com os nomes de Luiz da Gama e Elisa Lucinda temos o que podemos chamar de grandes nomes da Literatura Afro-brasileira. Nós trabalhamos também a obra do Poeta da Consciência Negra, Oliveira Silveira e sua luta pela mudança da data da Consciência Negra de 13 de maio pelo dia 20 de novembro, morte de nosso herói negro, Zumbi dos Palmares. Oliveira é gaúcho e isso aproxima mais a identidade Afro-gaúcha de nossos alunos negros.
   Ao estudarmos estes autores, para mim, estava contemplada então a Literatura Afro-Brasileira,  feita por escritores negros de vários estados do Brasil, inseridos dentro dos diversos períodos literários da Literatura Brasileira, enfim, na linha do tempo da História do Brasil.
   Porém, a Literatura, uma ciência que trabalha com a arte da linguagem, tem um poder que ultrapassa o tempo e se eterniza nos corações dos leitores: a comoção!
   Nesse grupo de escritores, uma se destacou por ter tocado o coração dos alunos que a pesquisaram: Carolina de Jesus. Um aluno, que faltava muito e não se interessava pelas aulas foi o sorteado para pesquisar a obra de Carolina. No dia da apresentação, com os olhos cheios d’água, nos contou a história da catadora de papel que se tornou escritora. Uma história de superação que fala à alma dos alunos, muitos deles, moradores da periferia. Uma história de uma mãe, guerreira, batalhadora, que fez eles se lembrarem de suas mães. Uma escritora negra, favelada, catadora de papel, que publica um livro de sucesso, traduzido para outras línguas e que vai ser o primeiro retrato fiel das favelas brasileiras, para o mundo ler, conhecer e reconhecer como Literatura. Uma história que se aproxima dos contos de fadas!
   A partir daí, vi a necessidade de colocar em definitivo a escritora Carolina de Jesus no currículo. Trazer a Literatura Afro-brasileira e Periférica para uma reflexão constante do lugar do negro na sociedade que, depois de ocupar o papel de escravo, ocupa agora o lugar do favelado: na periferia, na margem, na miséria e na fome.
   O retrato da favela dos anos 60 não mudou muito no século XX, mas muito se apagou dos artistas, escritores e sambistas dessa periferia.

“[...] Refavela, aldeia de cantores, músicos,
e dançarinos pretos, brancos e mestiços.
O povo chocolate e mel.
Refavela, a franqueza do poeta; o que ele revela;
o que ele fala, o que ele vê.”
(Gilberto Gil)

   Favela, periferia, margem, comunidade.
   Numa linha de tempo da história da Literatura Brasileira, formada predominantemente por homens brancos e letrados, surge uma mulher negra e com pouco estudo. Uma transgressão, uma história de sucesso, uma representante de um povo que luta pela sobrevivência, resiste e vence!
   Ela, diferente de Cruz e Souza, Lima Barreto e Machado de Assis, não tinha curso superior nem profissão que provesse seu sustento. Foi no lixão que encontrou sua paixão: os livros! Foi no lixão que catou folhas de papel em branco onde escreveu seus diários que resultaram no livro Quarto de despejo: diário de uma favelada.
   Para justificar a entrada dessa escritora em definitivo no currículo da escola precisei buscar o conceito de Literatura Afro-brasileira e, nesse percurso, encontrei um professor que assim como eu, é autodidata e está sempre se atualizando e pesquisando o tema, o colega Breno Lacerda. O conceito abaixo foi extraído do conteúdo de seu blog2
[...]O conceito ainda está em construção, mas tem o ponto de vista culturalmente identificado
à afrodescendência como fim e começo. Se a Literatura é veículo de conscientização e
mobilização, a Literatura Afro-brasileira exalta a herança étnica e redefine a expressão
cultural afro-brasileira. Na segunda metade do século XVIII, início do século XIX, já temos
algum registro, mas o público leitor ainda é formado pelo homem branco. E segundo Zilá
Bernd, os temas e autores negros são aqueles visíveis e ativos que pretendem transformar
sua comunidade e vida, através de ações afirmativas, solidariedade e construção de
autoestima. A Literatura Afro-brasileira é uma criação vinculada com a África que nos
deixou um legado cultural vasto e primoroso. É através do conhecimento deste legado que
a criança negra será capaz de identificar-se enquanto pessoa pertencente ao grupo negro
e orgulhar-se de suas origens e de sua história. (LACERDA, 2014)

   Carolina de Jesus não é a primeira escritora negra do Brasil. Na pesquisa realizada verifiquei que Maria Firmina dos Reis, mulher e negra é considerada a primeira escritora brasileira a introduzir o Romantismo no Brasil. Obviamente seu nome não consta nos livros didáticos, nem nos manuais de Literatura. Assim como muitas outras, foi apagada da história.
   Mas, e então: por que a escolha de Carolina?
   Porque ela traz a voz da favela, do favelado. Ela é o sujeito na sua narrativa: traz consigo a condição do negro excluído da sociedade. Tem a consciência de que a cor de sua pele é a mesma da maioria dos moradores da favela. Ela é a consciência negra. Ela se move na condição de mulher, na condição de mãe sozinha, com três filhos para alimentar. Traz a solidariedade para com seus iguais, apesar de não aceitarem o seu sucesso. Traz a autoestima para a comunidade do Canindé.
   Os jovens alunos negros e negras do grupo com o qual desenvolvi essa proposta se identificaram com a trajetória de Carolina, que viu na leitura e na escrita o caminho da liberdade. Orgulharam-se de serem negros como Carolina era.
   Eu, professora, me vi mergulhada nessa escrita que é feita de fome, suor e lágrimas. Impossível não se emocionar em todos os encontros onde lemos os trechos desse “Diário de uma favelada”.
   Carolina traz para os nossos dias a história de uma das primeiras favelas de São Paulo: Canindé. Lugar para onde ela se mudou depois de perder o trabalho de empregada doméstica.
   Nas aulas de Literatura, sempre faço a contextualização da obra e uma reflexão sobre a atualidade desse trabalho e suas relações de simetria com a contemporaneidade. Neste sentido que aqui trago o conceito de refavela do cantor e compositor Gilberto Gil.
   Refavela é o lugar para onde somos transportados ao colocar em perspectiva a favela nos anos 60 e a favela de hoje, no século XXI. Quais seriam as diferenças? Muita coisa mudou, para melhor. Até o nome “favela” vira “vila”, se lá tiver água encanada e luz. Na favela nasceu o samba. Hoje, o funk, misturado com o rap dá samba também!
   Mas, o que permanece igual? O sonho de morar no asfalto. O sonho com o centro da cidade. O sonho da paz, sem a violência do tráfico e da polícia. Nos anos 60, as atividades ilícitas eram pequenos roubos, onde o que era roubado ficava escondido nos barracos. Hoje, o tráfico de drogas faz parte do dia a dia da favela e além do medo, traz a morte de muitos sonhos juvenis e o luto das mães sem os seus filhos. O principal ainda não mudou: a miséria, a exclusão, o quarto de despejo da cidade ainda é a favela. E é essa percepção que encontramos no trabalho de Gilberto Gil. Inclusive, em sua biografia encontramos uma passagem de sua experiência na cidade da Lagos, situada na Nigéria, onde permaneceu durante um mês:
(Gil disse ter reencontrado) [...] a paisagem suburbana dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 1950, tirando muitas pessoas das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas. (GIL, 2013, pág.190)

   Esse diálogo entre Carolina e Gil não é gratuito. Carolina além de escritora era compositora de sambas e, em Literatura, cada vez mais estudamos a canção popular na condição de poema: a letra de música está carregada de poesia e lirismo.
   Neste sentido, como proposta de releitura da obra de Carolina, pedi aos alunos que escrevessem poemas sobre a favela, ou pesquisassem na Música Popular Brasileira, sambas ou raps que a trouxessem como tema.
   Nosso diálogo foi riquíssimo: muitos poetas foram pesquisados e muitos raps que falam em superação e combate à violência, preconceitos e racismo oportunizaram o envolvimento de alunos inseridos na cultura “Hip-Hop” - expressa em suas vestimentas, danças e vocabulário próprios.
   Carolina presta-se também como referência para abordagem de outro conceito, o de Literatura Periférica.
   A Literatura Periférica tem sido tema de debates nas Feiras Literárias no Brasil e na Europa. Como marco de publicação desta corrente temos o romance Cidade de Deus3 de Paulo Lins.
   Conforme pode ser observado na tese de doutorado pesquisador Mário Augusto Medeiros da Silva (Unicamp/2011), é importante a reflexão acerca do compromisso com o desvelamento dos pontos de contato e distanciamento entre as ideias de Literatura Negra e Literatura Periférica:
As ideias de Literatura Negra e Marginal/Periférica aparecem no Brasil ao longo do século XX. Estão intimamente ligadas às formas de associativismo político-cultural dos grupos sociais de origem. Geraram um número significativo de autores, temas, proposições estéticas e políticas. Existem escritores que se atrelam àquelas ideias imediatamente e as defendem; outros, apesar de negros e/ou periféricos, as repelem. Todavia, quase todoescritor negro e periférico teve, de alguma maneira, de se referir a elas ou foi discutido nesse diapasão, quando surgiu na cena pública como autor. Isso provoca discussões interessantes: o escritor negro/periférico é necessariamente autor de uma LiteraturaNegra/Periférica? Na passagem de personagem a autor, o que é tematizado literária e socialmente por esses escritores? Por que as ideias de Literatura Negra/Periférica não surgem e se desenvolvem como proposições estéticas “puras”, tendo que lidar geralmente com as questões sociais nas quais seus grupos de origem estão envolvidos? (SILVA, 2011)

   Mas e Carolina de Jesus, que surgiu antes de Cidade de Deus? Como inseri-la nesse contexto da Literatura Periférica? Novamente em SILVA (2011) encontramos pistas para essa compreensão:
Foi selecionado um recorte temporal que abarcasse o período contemporâneo, onde uma autora negra brasileira se torna mundialmente famosa por sua escrita e tema, tão singulares quanto sua origem social. Em 1960, a favelada catadora de papéis Carolina Maria de Jesus sai do anonimato com a publicação de Quarto de Despejo. Por uma série de razões, seu livro se torna um sucesso enorme e, por tantas outras, entre 1962-1977, ela desaparece progressivamente até sua morte, quase tão anônima quanto seu surgimento. Em 1997, outro autor negro de origem favelada se torna um escritor discutido quase quotidianamente, repetindo e ampliando o sucesso de De Jesus: Paulo Lins publica Cidade de Deus, um dos grandes romances da década. Entre ele e De Jesus existem uma série de aproximações, que são discutidas na tese. Mas também é interessante a maneira como eles lidaram com as questões sociais referentes a seus grupos e condições originais, bem como as ideias estéticas que seus pares, ativistas, escritores e intelectuais negros lograram criar. (SILVA, 2011)

   Partindo deste entendimento planejei a aula sobre Carolina de Jesus. Aproveitei o tema que estava sendo estudado pelas turmas do terceiro ano do Ensino Médio (Modernismo - mais especificamente a Terceira Geração Modernista, também conhecida como Neomodernista ou Pós-Modernista) e, intencionalmente, situei-a junto a seus contemporâneos de 1945 à 1960(Clarice Lispector ,Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Rachel de Queiroz).
   Registrei no quadro uma breve biografia4 e aguardei a reação do grupo. Logo surgiram os
primeiros questionamentos:

   Aluna: Sôra, ela era negra?
   Professora: Sim!
   Imediatamente a aluna, que não apreciava muito Literatura, correu para o celular procurando fotos de Carolina.

   Em outra turma, um aluno negro, que frequentemente sentava-se isolado do restante da
turma, fez uma exclamação:

   Aluno: Sôra, essa história é mentira, né?
   Além de responder que não, não se tratava de uma mentira, expliquei que ainda hoje muitas pessoas encontram livros no lixão e os utilizam para estudar e, quem sabe, através deles ingressarem em faculdades e empregos públicos.
   Mas, também afirmei que sim: a história de Carolina é uma exceção que a levou do lixo ao luxo. Conforme confirmado por ela mesma em seu diário:

“Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá...isto é mentira! Mas, as misérias são reais” (Carolina de Jesus, 1995, página 41)

   Após esses diálogos iniciais, dei continuidade às atividades contando um pouco sobre sua vida e a oportunidade de estudo obtida por meio da oferta do dono da fazenda em que trabalhavam os pais de Carolina.
   Sobre isso, o processo de escolarização dos negros do Brasil, cabe ressaltar que:

[...] no século XIX, no Brasil, surgiu a necessidade da criação de uma “identidade nacional”
e essa só se daria com a educação da “massa inculta” e a “moralização” dos degenerados
e desonestos. (SANTOS, 2009)

   Neste sentido, problematizei com os alunos as estratégias adotadas pelos negros que não conseguiam chegar à escola. Falamos sobre as Irmandades e os Clubes Negros e seu fundamental na escolarização, pois além de se alfabetizarem os negros se apropriavam dos códigos sociais e, assim poderiam almejar a ascensão, de modo que o retorno dessa conquista retornasse para a comunidade negra.
   Destaquei o fato de que Carolina, antes de começar a escrever, foi uma leitora voraz já aos dois anos de idade e busquei informações complementares na pesquisa5 da historiadora Elena Pajaro Peres sobre a Poética da diáspora. Em seu trabalho, PAJARO (2014) estuda aspectos da vida de Carolina que vão além dos livros e do período em que a autora viveu em São Paulo como, por exemplo, a convivência com seu avô (ex-escravo de origem bantu) que, na figura de griôt, lhe repassou um vasto repertório cultural sobre a riqueza e nobreza deixadas para trás na África ancestral e mesclada com tantas outras no Atlântico. Outra pessoa fundamental na infância de Carolina foi o negro Manoel Nogueira: um oficial de justiça que, durante as tardes, em frente a uma farmácia lia para os negros jornais, poemas de Castro Alves e textos de José do Patrocínio. PAJARO (2014) nos conta ainda que, quando aprendeu a ler na escola Carolina foi tomada de tamanha euforia que saiu às ruas lendo todas as tabuletas que via e, ao chegar em casa, marcada pela cultura oral, não encontrou nada para ler. Uma vizinha foi quem lhe emprestou seu primeiro livro, A escrava Isaura6
   Em continuidade às atividades desenvolvidas, na aula seguinte iniciamos a leitura de trechos da obra de Carolina. Inicialmente solicitei que os alunos realizassem leitura individual e silenciosa para, em seguida, compartilharem em voz alta seu excerto preferido. Cada trecho lido era comentado por mim, que instiguei questionamentos sobre o conteúdo da escrita de 1960 e sua aproximação com a atualidade. Compartilho em seguida alguns exemplos:

Quem inventou a fome são os que comem. (frase dita por Carolina de Jesus)

   Na discussão sobre esse trecho tivemos controvérsias. Solicitei aos alunos que me explicassem o que entendiam sobre essa afirmação. Um grupo disse que alguns comem demaise outros comem de menos. Outro disse que quem não comia era porque não trabalhava e que, os que comem, às vezes também sentem fome. Abordamos então o contexto da favela dos anos 60, dos desempregados em razão do analfabetismo e de pessoas que comiam no lixão. Um aluno, inclusive, relacionou o tema ao documentário “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado.

Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário. (frase dita por
Carolina de Jesus)

   Muitos alunos não sabiam o que significava o termo calvário. Expliquei, além do significado do termo, que essa frase marca a desilusão de Carolina com o papel da igreja dentro da favela. Refletimos que hoje, no lugar da igreja católica, temos a igreja evangélica muito presente nas comunidades carentes e que, embora ajude a comunidade, não raro fomenta a intolerância religiosa com os adeptos das religiões de matriz africana.

[...] em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios,
nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos
, residindo debaixo das pontes. E por isso que eu denomino que a favela é o quarto de
despejo da uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos (Carolina de Jesus, 1995,
página 171)

   Aproveitamos este excerto para discutir a questão das remoções e da especulação imobiliária. Compartilhei com os alunos as aprendizagens que obtive no curso UNIAFRO/UFRGS, em que discutimos e aprendemos sobre os Territórios Negros de Porto Alegre junto à mediadora Fátima, que nos contou sobre a remoção dos moradores do bairro Ilhota para a Restinga. Neste instante os alunos moradores da Restinga ficaram muito entusiasmados, fizeram questão de relatar que conheciam essa história e que ela era verdadeira.

Nas favela, as jovens de 15 anos permanecem até agora que elas querem. Mesclam-se
com as meretrizes, contam suas aventuras (...) Há os que trabalham. E há os que levam
a vida a torto e a direito. As pessoas de mais idade trabalham, os jovens é que renegam
o trabalho. Tem as mães, que catam frutas e legumes na feira. Tem as igrejas que dá pão.
(Carolina de Jesus, 1995, página 16)

   Esse trecho da obra de Carolina me trouxe a real dimensão do meu trabalho de educadora. Levei-o para uma Oficina de Escrita Criativa para meninas da comunidade da Vila Chocolatão de Porto Alegre, pré-adolescentes que participavam de um grupo da Biblioteca Comunitária. Uma das meninas, ao ler o trecho lembrou-se da sua infância, de quando acompanhava sua mãe na Feira Livre, na “hora da Xepa”. Durante esta recordação seus olhos encheram de lágrimas e os meus também. Esse é o efeito da Literatura de Carolina de Jesus: o despertar do humano em cada um de nós!
   Depois da leitura dos trechos e dos comentários e conversas que surgiram solicitei aos alunos que fizessem a (re)leitura dessa obra, expressando através de um poema seu entendimento da (re)favela de Carolina de Jesus.
   Em seguida, com o auxílio da professora da biblioteca da escola, promovi um concurso entre as turmas. Na Semana da Consciência Negra fizemos um sarau na própria biblioteca: o “Sarau Negras Poesias”, durante o qual lemos os poemas dos alunos e de alguns autores negros. Um dos alunos cantou o trecho de um samba de Carolina, com o auxílio da professora de Artes que levou flauta e o chocalho e que também cantou músicas de autores negros:

É triste a condição do pobre na terra
Rico quer guerra pobre vai na guerra
[...]
Rico faz guerra pobre não sabe por que
Pobre vai na guerra tem que morrer
Pobre só pensa no arroz e no feijão
Pobre não [se] envolve nos negócios da nação
Pobre não tem nada com a desorganização
[...]
Pobre e rico são feridos
Porque a guerra é uma coisa brutal
Só que o pobre nunca é promovido, rico chega a marechal.
(JESUS, 1961)


   Uma das alunas vencedoras do concurso leu o seu poema, que transcrevo aqui:

Realidade Urbana
Se somos o que comemos, e quem come lixo?
Infelizmente na atualidade, o homem é escravo do homem.
Toda riqueza é oriunda da exploração.
A indiferença entre as pessoas as tornam máquinas de fazer dinheiro
Perante a sociedade exploradora, os que possuem cor de pele mais escura
Não podem ser considerados humanos
Quando a população mais pobre começar a fazer, eles têm medo.
Karla Conceição, 2016

   A temática da fome e da má distribuição de renda tocou muito aos alunos, assim como o racismo, que foi discutido diversas vezes. Por fim, admitiu-se que sim: somos umas ociedade racista. A favela é negra e a fome é amarela, parafraseando Carolina de Jesus. O “Manifesto da Refavela” de Gilberto Gil, traz o olhar poético sobre essa parte da cidade que Carolina chamava de“quarto de despejo”:

Manifesto de Refavela
Refavela, como refazenda, um signo poético.
Refavela, arte popular sob os trópicos de câncer e de capricórnio.
Refavela, vila/abrigo das migrações forçadas pela caravela.
Refavela, como luz melodia
Refavela, etnias em rotação na velocidade da cidade/nação...
GIL, 2013

A cultura afro-brasileira na sala de aula, identidade e pertencimento
 
   Formei-me como professora antes da criação da Lei n.º 10.639/03. Como autodidata ,comecei a pesquisar a cultura afro-brasileira que me é tão cara e tão presente: música, dança, arte, culinária, religião, etc.
   E a História? A história do povo negro no Brasil? Volto em minhas memórias e me vejo na 5ªsérie do Ensino Fundamental, na aula de História do Brasil: a escravidão dos negros! As crianças todas olham para mim, a única aluna negra na turma. Os risinhos de deboche. Eu, envergonhada, pensava: eles pensam que posso ser escrava deles... Feridas na alma de uma criança que ainda vai ser discriminada pelo seu cabelo, seu nariz, sua boca durante boa parte de sua vida. O desconforto do racismo tem que servir para nos desacomodar e tomar uma atitude, e é isso que venho buscando fazer em minha vida.
   Como ensinar essa passagem da história da humanidade para as crianças brasileiras? Onde buscar a parte boa da história do povo negro que foi apagada propositadamente? Uma história em que, ainda hoje, o Egito, seus faraós e cientistas, ainda são representados por atores brancos na televisão e nos filmes? Como lembrar que a escravidão já acontecia na Grécia Antiga? Como “enegrecer” esse currículo e mostrar que o povo negro não apenas contribuiu para a construção do país, mas que é a própria essência do país? Um país de maioria negra e a segunda maior população negra do mundo?
   Um tema doloroso e delicado, sim. Mas, como ensinar a cultura afro-brasileira sem falar em racismo? Qual aluno negro no Brasil ainda não vivenciou na pele o olhar racista, a atitude discriminatória, a exclusão social, a negação de seus direitos? E os alunos brancos? Muitos não querem nem falar nesse assunto, pois isso não é com eles. E ainda outros, que estão em seus lugares privilegiados onde nada os afeta e que nunca pensaram nesse assunto...
   Qual o impacto que causamos ao entrar na sala de aula e nos assumirmos como uma pessoa negra, com cabelos crespos e com a postura de uma “afrobetizadora7”? Como reagir aos alunos que dizem que não, sôra, a senhora não é negra, a senhora já sofreu racismo? Não pode ser, sôra, isso é racismo contra os brancos, etc.?
   E então, em meio a essas reflexões, me vejo aluna do curso UNIAFRO/UFRGS – 3ª edição e, junto aos meus colegas, percebo que meu cabelo crespo, silencioso, foi capaz de mobilizar e encorajar minhas alunas negras a assumirem seus crespos e soltarem seus cachos. Uma percepção ampla e intimamente celebrada por essa professora que às vezes desanima diante do projeto de embranquecimento de seu país e do apagamento da sua ancestralidade.
   Ensinar a cultura afro-brasileira é um trabalho que exige total comprometimento e sob o qual tantos professores negros, quanto brancos estão sujeitos ao preconceito dos colegas: é falar sobre uma lei que surgiu pela falta da narrativa negra. É preciso disposição para rever seu aprendizado e “enegrecer” o currículo. É preciso se tornar um “afrobetizador” e colocar a lente negra para enxergar o racismo e combatê-lo.
   O projeto da “Consciência Negra” deve estar no currículo da escola não somente no mês de novembro, mas durante todo o ano letivo e deve envolver toda a equipe de professores de todas as disciplinas. Existe muito material disponível e o que se precisa é de força de vontade e união.

Considerações finais
 
   A presença de uma mulher negra e pobre no currículo da Educação básica causa, ainda hoje, estranhamento e perplexidade. Direcionar o olhar em direção à favela e às suas mazelas que ainda são as mesmas de tempos atrás, nos faz ter a consciência necessária para mudar esse cenário.
   Na escola pública, em que muitos alunos são oriundos das periferias da cidade e compreendem muito bem a estética da fome, Carolina de Jesus pode ser muito parecida com suas mães, que trabalham fora e cuidam dos filhos sozinhas. Somadas a essas dificuldades, a cor de suas peles, é também um obstáculo.
   Discutir história e cultura afro-brasileiras é discutir a História do Brasil: país de origem indígena que viu chegar em suas terras, portugueses, africanos, italianos, etc. Essa diversidade étnica deveria criar uma sociedade igualitária, mas sabemos que ainda não é assim
   O africano foi trazido à força e da sua força ergueu as pedras fundadoras de nossas cidades. Depois do cativeiro: a exclusão, a marginalidade e a favela.
   Se focarmos a história do negro no Brasil para o pós-abolição, veremos ainda o “capitão do mato” vestido de farda criminalizando os jovens negros. Nossos presídios têm a maioria da sua população carcerária formada por negros. Os hospícios estão cheios de vítimas do racismo institucionalizado, que acabam por enlouquecer devido à recorrente exclusão dos círculos sociais. Sobram para os negros os trabalhos braçais, os trabalhos domésticos e ainda o trabalho escravo. Uma mulher negra no Brasil é a que ganha menos, depois do homem negro que ganha menos que uma mulher branca.
   O sistema de cotas raciais nas universidades está mudando esse cenário. Devido aos programas sociais, muitos alunos do Ensino Médio Público são os primeiros em suas famílias a concluírem os estudos e a sonharem com o diploma. E, quem sabe, se esse aluno encontrarem seu currículo histórias como a de uma negra catadora de papel que se tornou escritora internacionalmente famosa, também possa vir a sentir prazer na Literatura e, a partir de seus diários e confissões, se tornar mais um escritor negro brasileiro!

 1 Professora da Rede Pública do Estado do Rio Grande do Sul, licenciada em Letras – Português/Literaturas,
com aperfeiçoamento em Política de Promoção da Igualdade Racial na escola
2 Blog Breno Africanidades. Disponível em: http://brenoafricanidades.blogspot.com.br/search/label/
Conceito%20de%20Literatura%20Afro-brasileira. Acessado em 03/03/2017.
 3 LINS, 1997,408 páginas.
4 Carolina Maria de Jesus, nasceu em Minas Gerais, moradora da favela do Canindé, era catadora de papel.
Reuniu em sua casa, todos os livros que encontrava no lixão. Também recolhia papel para escrever o seu diário onde
contava a difícil vida de moradora da favela. Descoberta por um jornalista, Carolina publicou seu primeiro livro e foi
sucesso de vendas e aceitação do público, inclusive sendo traduzida em vários idiomas, Ela é considerada uma
das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. Obra: “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” –
testemunho pessoal sobre a vida de miséria de uma moradora da favela na zona norte de São Paulo
5 FENSKI, 2014
6 GUIMARÃES, 1875
 7 É a ideia que coloca professores negros que cursaram ou estão na universidade, realizando projetos de
sucesso na vida com o intuito de trabalhar o protagonismo negro e a experimentação positiva, um letramento corporal.


REFERÊNCIAS
BARRETO, Lima, Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/
Lima_Barreto Acesso em 3 de março de 2017.
BRENO, Lacerda, Conceito de Literatura Afro-brasileira, março de 2014. Disponível em:http://
brenoafricanidades.blogspot.com.br/search/label/Conceito%20de%20Literatura%20Afrobrasileira
Acesso em 3 de março de 2017.
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Carolina Maria de Jesus – a voz dos que
não têm a palavra. Templo Cultural Delfos, maio/2014. Disponível em: http://www.elfikurten.com.
br/2014/05/carolina-maria-de-jesus.html em 29/10/2016
GIL, Gilberto; ZAPPA,Regina (org). Gilberto bem perto. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
JESUS, Carolina Maria de, Quarto de despejo, diário de uma favelada, 4ª edição, São Paulo:
Editora Ática, 1995.
LAVORATI, Carla, Uma voz que vem das margens: Carolina Maria de Jesus, a cantora improvável,
ANTARES, Vol. 6, Nº 12, jul/dez 2014, UFSM. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.
php/antares/article/viewFile/2980/1813 Acesso em 3 de março de 2017.
PINA, Rute, Ensino de história da África ainda não está nos planos pedagógicos, para Brasil de
Fato, 09/01/2017. Disponível em: http://www.geledes.org.br/ensino-de-historia-da-africa-aindanao-
esta-nos-planos-pedagogicos-diz-professora/#gs.tHk_rH8 Acesso em 3 de março de 2017.
SANTOS, Isabel Silveira dos. Abram-se as cortinas: representações étnico racias e pedagogias
do palco no teatro de Arthur Rocha. Dissertação de Mestrado. Universidade Luterana do Brasil.
(ULBRA), 2009.
Negras e negros no Sul do Brasil
Desenvolvimento, Patrimônio e Cultura Afro-brasileira
SANTOS, Isabel Silveira dos. Pedagogias culturais no teatro de Arthur Rocha. In: Diversidade
Cultural afro-brasileira: ensaios e reflexões. Brasília: FUNDAÇÃO CULTURAL PALAMARES, 2012.
Disponível em: http//www.palmares.gov.br
SILVA, Mário Augusto Medeiros da, Literatura Negra e Literatura Periférica no Brasil, 07 de junho de
2011, UFRJ. Disponível em: http://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br/literatura-negrae-
literatura-periferica-no-brasil/

sexta-feira, 4 de maio de 2018

LITERATURA E RESISTÊNCIA - Conceito Arte e Biblioteca Girassol
Yasmim Winck, Viviane Peixoto e Ana Dos Santos

domingo, 29 de abril de 2018

Diálogos insubmissos de mulheres negras
Grupo Multiétnico de Empreendedores Sociais RS lança o projeto do livro Coletânea Negras Palavras Gaúchas Dois


segunda-feira, 2 de abril de 2018

MARÇO DA MULHER! Esse mês que passou parece que foi pra fortalecer o que teríamos que passar  logo adiante com o assassinato de uma mulher negra, empoderada, que representava muitos grupos oprimidos pelo machismo, racismo e homofobia, Marielle Franco, presente em cada roda de poesia e conversa onde encontramos nos braços de outras pretas, consolo para nossa dor! Meu percurso de luta é o mesmo de Marielle e desejo a ela todas nossas vitórias a partir de hoje!






Sarau a Mulher Negra na Poesia com as poetas e compositoras do Sopapo Poético no Teatro de Arena
3º Encontro das Pretas com as poetas do Sopapo Poético no Centro de Referência do Negro
Revista Poesia Sem Medo com meu primeiro editorial e poema (São Paulo)
Roda de conversa População Negra e LGBT no Porto Carioca
Foto Nilveo Pereira Cristiano