sábado, 17 de dezembro de 2022

Lei do Ventre Livre não foi motivada por direitos humanos (entrevista que concedi ao portal Terra)

 

Lei do Ventre Livre não foi motivada por direitos humanos

Lei que previa a liberdade de bebês nascidos de mulheres escravizadas foi pensada por escravocatas a partir de aspectos econômicos

Jamile Santana - 28 de setembro de 2022 (portal Terra)
Texto completa 151 anos com impactos profundos na população negra

“Mulheres abortavam seus fetos, minavam seus afetos, para a família não morrer em vida” , o verso do poema “Ventre Livre”, escritora e Mestra em Literatura, especialista em Literatura e Cultura Afro-Brasileira, Ana dos Santos, publicado no livro “Raízes - Brazilian Women Poets in Translation” retrata um pouco do impacto da Lei de Ventre Livre, na vida de mulheres escravizadas. A lei previa que de 28 de setembro de 1871 em diante, as mulheres escravizadas dariam à luz apenas a bebês livres. Hoje, o texto completa 151 anos, com impactos profundos na população negra.
Mulher e criança escravizados

A proposta foi escrita por Visconde de Rio Branco e passou por aprovação do legislativo federal brasileiro, com embates e sob pressão. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, escritor do livro " A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial", a Lei do Ventre Livre, na época recebeu 61 votos a favor e 35 contra. O texto previa que a partir de 28 de setembro de 1871, não nasceria mais bebês escravizados no Brasil, na época um dos países que mais explorava mão de obra negra no mundo. As crianças deveriam permanecer junto de suas mães, nas casas dos escravocratas, até completarem oito anos de idade. Mas o que parecia uma libertação, dava mais tempo para que a mão de obra infantil fosse explorada. 
“É uma lógica muito contraditória. Você tem uma pessoa escravizada e determina que o bebê que nasce desse corpo é livre. Mas a gente sabe que um bebê, uma criança, precisa da mãe para sobreviver, pra se alimentar. Antes da lei, quando uma mulher negra dava a luz, essa criança era retirada dela, enquanto ela tinha que amamentar os filhos das sinhás. Eram chamadas de amas de leite. Então o seu próprio filho ficava sem alimentação. A lei, já nasce dentro desse contexto absurdo”, contextualiza. A Lei do Ventre Livre não teve o resultado prático que seria o mais óbvio: a liberdade dos bebês. Quem nasceu em 1871 só se tornaria efetivamente livre em 1892, aos 21 anos de idade.
Texto da Lei do Ventre Livre, que passou a vigorar em 28 de setembro de 1871

Ainda de acordo com a especialista, os documentos históricos mostram que  a discussão sobre a liberdade das crianças só entrou em pauta por questões econômicas. “Não foi a preocupação com o direito humano, dignidade e assistência que motivou a criação dessa lei. Foi uma questão econômica”. 
De acordo com os papéis históricos do Arquivo do Senado, organizações de fazendeiros, como o Clube da Lavoura, enviaram aos senadores 11 representações contra o projeto da Lei do Ventre Livre. Algumas apontavam o risco de caos social e econômico no Império. As petições somaram 2 mil assinaturas. Para tentar corromper sistema escravagista, muitas mulheres escravizadas praticavam o aborto. “As mulheres escravizadas provocavam aborto porque não queriam ter um filho fruto de uma violência ou não queriam colocar um filho para ser explorado pelo sistema. Era uma forma de resistência à escravidão. No poema eu destaco isso, as crianças cresceram, reproduziram o trabalho escravo vivido pela mãe. Há documentos históricos que mostram que as crianças negras eram um animal de estimação dos filhos da Casa Grande. Não tinham direito a uma vida digna e plena. As leis abolicionistas são uma farsa nesse sentido, porque não tem o povo negro como ponto central”. 

O impacto da lei reverbera até hoje, segundo Iamara Viana, historiadora especialista na História da Escravidão no Brasil. “Do ponto de vista teórico e conceitual, está extinta. foi extinta, com a lei de 13 de maio de 1888, devido a movimentos populares negros, libertos e também de abolicionistas. Mas o que temos hoje são relações trabalhistas que seguem modelos similares de escravização. Hoje temos leis trabalhistas, mas se elas não são cumpridas, temos situações similares à escravidão”.






  • sábado, 5 de novembro de 2022

     

    CASA DE ALVENARIA volume 1: OSASCO - CAROLINA MARIA DE JESUS

    Depois de deixar o "quarto de despejo", Carolina se muda para a tão sonhada "casa de alvenaria"! O diário foi solicitado pelo jornalista que a descobriu: que ela continuasse descrevendo o seu dia-a-dia no seu novo endereço. 

    Carolina ficou "rica e famosa" de um dia para o outro, e é a escritora que mais vende livros no Brasil, tendo o seu "Diário de uma favelada" traduzindo para 21 países e 14 idiomas. Porém, nem tudo são flores...o racismo, o machismo e o preconceito de classe vão perseguir Carolina para sempre... 

    A grande contribuição desse documento histórico, resgatado pela sua filha Vera Eunice e a escritora Conceição Evaristo, entre outros componentes, é justamente a crítica ao mercado editorial. Parece ironia, mas quem construiu a imagem da preta favelada que escreveu um livro, vai querer mantê-la estagnada nessa mesma imagem. Carolina queria escrever ficção, seus poemas, romances, peças de teatro, canções. Mas foi obrigada a continuar escrevendo o diário.

    A nossa escritora só se sente bem porque agora dorme numa casa de alvenaria e tem o pão de cada dia para alimentar seus filhos. As três crianças frequentam a escola e usam roupas novas, mas são agredidas diariamente por serem filhos da favelada, por serem "crias" da favela. "Bitita", agora pode se vestir elegantemente, com vestidos, sapatos, bolsas e acessórios, mas diariamente, oportunistas e espertalhões batem à sua porta pedindo empréstimos, doações e patrocínios para projetos sociais e individuais... 

    O tempo de leitura é escasso, pois Carolina vive dando entrevistas para o rádio, jornal, revistas e televisão e viajando do Oiapoque ao Chuí. Nessa estada em Osasco, a autora começa a refletir se valeu a pena sair da favela... entre tantas outras reflexões que nossa filósofa faz sobre o Brasil, a política, o racismo, o machismo, a educação. É um livro de grande qualidade, assim como "Quarto de despejo", provando a verdadeira força das palavras dessa escritora genial. Virou meu livro de cabeceira e....daqui uns dias eu falo do volume 2. Ana Dos Santos

    segunda-feira, 24 de outubro de 2022

     


    O SOM DAS LETRAS - Delma Gonçalves por Ana Dos Santos

       Delma Gonçalves não tira apenas o som das letras quando declama seus poemas, ela também escuta um som ao fundo, uma melodia, um ritmo, uma cadência, e assim, letra e música vão se (con)fundindo. É que Delma, além de poetisa é compositora.

       Em seu primeiro livro autoral, “O Som das letras” (Cidadela, 2019), lançado um pouco antes da pandemia, a autora reúne as suas escritas publicadas em diversas antologias, coletâneas, e concursos, com destaque para “Pretessência” (2016) e “Aquilombados” (2021), publicações do sarau Sopapo Poético, que completou 10 anos agora em março e aconteceu na quadra da escola de samba da família de Delma: Acadêmicos da Orgia.

       Delma nasceu no berço do Carnaval gaúcho e foi parceira, dentre tantos outros, de Bedeu, Gilberto Oliveira, Vladimir Rodrigues, Cláudio Costa, Jorge Onifade, Renato Borba; assim como teve suas canções interpretadas por várias intérpretes e cantoras gaúchas como Yara Lemos, Cláudia Quadros, Renata Pires, Celinha Sorriso, Joice Mara, etc.

       A produção reunida aqui em “O Som das Letras” está dividida em subtítulos e temas: “EUPOEMA”, “OFÍCIO DE COMPOSITORA”, “FATIAS’, “PATUÁ”, “O CORAÇÃO É UM POÇO”, “MEU PRIMEIRO PARTO” e “LETRASOLO”. Eis alguns poemas:

     

    EU POEMA – Meu eu nos rastros da memória de minha história

    Escrita

    O que move minha escrita?

    É a palavra dita

    Aquela sem sossego

    Que atropela segredos

    Corre para o desapego

    Como quem sabe de anônimos apelos

    Guardada é fio, enredo é música enrustida

    Então a solto pelas lutas de sangrentas vias

    Ela verte emoção em sua evolução

    A caber perfeita em fadadas fantasias

    Amor, paixão, tristeza, alegria.

    E se transforma aguerrida,

    Como a rainha Nzinga

    Empoderada, resistente

    E, aos olhos de muitos que dela se apropriam

    E lhes dão autonomia

    As denominam simplesmente, assim:

    A poesia!

     

    OFÍCIO DE COMPOSITORA – Ensaio de palavras no aprumo da emoção, o suado oficio estuda a métrica e a melodia na aliança de minha inspiração

    Ofício de compositora

    Nas rodas de samba, nós somos bambas com louvor

    A essência da vida que dá vida, já disse o criador.

    Nossa musicalidade vem de berço, sim, nós temos valor

    Salve a mulher que traz o dom na alma,

    Assim como todo o bom compositor

    O sexo feminino há muito tempo discrepâncias, aturou.

    Ficamos na retaguarda e pra si a escrita guardou

    Temos um bom exemplo da trajetória de dona Ivone Lara

    Pra mostrar suas canções, emprestou seu nome,

    Sem revelar sua cara

    Está na hora de mostrar a força das mulheres,

    Divinas, empoderadas

    Pra falar da rotina, sem serem discriminadas.

    Salve o ofício das compositoras em suas jornadas

    Esse é um bom motivo de não desistirem nessa batalha

    Agora tudo mudou a tecnologia se rendeu a nosso favor

    O talento autoral no universo da arte faz parte

    Cantar nossas filosofias no toque do pandeiro e de um violão

    Ganhamos mais autonomia, socializando o nosso som

    Aguerridas, somos a essência vital de sensibilidade.

    Representantes da pioneira no abre alas

    De Chiquinha Gonzaga

    Vamos seguir avante na cara e coragem com dignidade,

    Em prosa e verso pra sermos realmente valorizadas!

     

    FATIAS – Pedaços de escritos, as falas enxutas, o pouco do muito que guardo em mim

    Caso de amor

    Alinhavo

    Entremeio

    Costuro o rasgo gasto

    E não me desfaço

    Abotoo o velho amor

    Na porta do coração

    Por entre meus seios!

    Pupilas

    Apalpe a palavra

    Com as pupilas dos olhos

    E deguste-a com a saliva do pensar

    A fome de ler vai te bastar

     

    PATUÁ – A miscigenação no brilho de minha pele, reflete na escrita como um patuá a espelhar minha descendência em negrito

    O CORAÇÃO É UM POÇO – Tudo que arde que escorre, que não seca nem com um pano, o amor profundo boia na sanga, não tem medida, quando sangra, nada abranda

    MEU PRIMEIRO PARTO – Procrio meu livro como cadela no cio, na trilha, sou ilha de versos e verbos, deles nascem minhas filhas poesias. Por entre estribilhos, me reparto nos orgasmos do parto, dos meus filhos

       O livro encerra com a reunião das Letras de Delma que se tornaram Sons nas mãos dos compositores:

    LETRASOLO – As letras solitas seguem seus rumos em busca de melodias e neste encontro se imortalizam em parcerias de seus casamentos bígamos.


    sábado, 1 de outubro de 2022

    ON THE ROAD, AGAIN! Depois de 3 anos sem viajar!!!

     APRESENTAÇÃO DO LIVRO "MULHERES ESQUECIDAS" DE ROSANE PEREIRA


    Tive a honra de fazer a apresentação desse livro!

    Título: MULHERES ESQUECIDAS
    Aurora: Rosane Pereira
    Editora Bestiário

    Melina, Júlia, Tereza e Luana são as mulheres esquecidas dessa narrativa. Mas Ângela, Alice e Maria Clara também foram esquecidas. Assim como Lilian, Mariana e Margarida... Na São Paulo do século XXI, milhares de moradoras de rua são esquecidas em um canto qualquer. Vamos acompanhar de perto a amizade que surge em meio ao caos de uma vida incerta e inesperada para quem vive da caridade alheia. Rosane Pereira põe uma lente de aumento sobre essas existências: "Desde que passei a viver na rua, entendi que de nada serve ter uma história para lembrar ou para contar. A gente tem que viver cada dia, um por um", lamenta Júlia. Porém, a autora vai nos contar as histórias de vida dessas mulheres, algumas sem identidade, mas todas com uma vivência em comum: os anos em que viveram juntas em um casarão abandonado. O machismo, o racismo e o classismo atravessaram seus corpos com todos os tipos de violência. De abandono em abandono, não se fixam em nada nem em ninguém, sempre vagando pelo mundo: "...a rua é tudo que é lugar e não é lugar nenhum", afirma Luana. É na convivência diária que vão construir entre elas a sororidade e a dororidade que as reúne. A Literatura é fundamental para que se preserve a memória, e Rosane Pereira, com suas palavras, faz com que nós nunca mais nos esqueçamos dessas mulheres.

    Ana Dos Santos
    Escritora, professora e Mestra em Literatura Brasileira.

    Sobre a autora:
    Rosane Pereira nasceu em Porto Alegre, é psicanalista, publicou seu primeiro romance, "Estranhos, Noturnos... e amantes - Retrouvailles online", pelas Editoras Associadas, (Porto Alegre) em 2009. Em 2013, publicou sua coletânea de contos "A invenção do Sentimento" pela Editora Ideias a Granel (Porto Alegre) e em 2018 publicou seu segundo romance " A dor dos lobos" pela Editora Patuá (São Paulo).


    APRESENTAÇÃO DO LIVRO "JOCOSO PONTO" DE TAINÃ ROSA E MITTI MENDONÇA


    Fui convidada a escrever a apresentação desse encontro de artes verbais e visuais: JOCOSO PONTO de Tainã Rosa e Mitti Mendonça:

    A mulher negra pode ser ela mesma? Pode escrever, fazer arte, contar histórias, bordar, encenar, tecer? Qual o ponto de partida? Carolina e suas escrevivências? Qual a trama, o enredo o tear o ponto sem nó? Qual o ponto da chegada? Tainã Rosa e Mitti Mendonça tramam juntas o malicioso, o harmonioso, o esperançoso ponto jocoso que nos fará sorrir com poesia, Axé!
    Ana Dos Santos
    Mestra em Estudos de Literatura e escritora.

    MEU ANIVERSÁRIO E 9 ANOS DO CLUBE DE LEITURA DO PROFESSOR GAÚCHO


    FESTIVAL INTERNACIONAL LITERÁRIO DE GRAMADO

    Você sabe quem foi Oliveira Silveira?

    Em seu cartão de visita, Oliveira Silveira se definia como pesquisador da cultura afro-brasileira e escritor de literatura negra. Falecido no dia 1 de janeiro de 2009, o poeta, professor e intelectual, com grande trabalho dentro do movimento negro (foi um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra), deixou um legado vivo e que segue sendo objeto de pesquisas e influenciando novas gerações.

    Nascido no distrito de Touro Passo, na Serra do Caverá, em Rosário do Sul, Oliveira fez uma poesia que refletiu sobre o seu tempo e que se mostra, cada vez mais, universal.

    No início da década de 1970, Oliveira Silveira, Antônio Carlos Côrtes, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes, Jorge Antônio dos Santos (Jorge Xangô) e Luiz Paulo Assis Santos, recorrentemente, encontravam-se em frente à tradicional Casa Masson da Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre. Reuniões posteriores incluíram membros e culminaram com a consolidação do Grupo Palmares, focado nos estudos de artes, literatura e teatro.

    Para homenageá-lo durante o 1º Festival Internacional de Literatura de Gramado, reunimos uma comissão, composta por Ronald Augusto, Ana dos Santos, Richard Serraria, Naiara Silveira, Sátira Machado, Coletivo Sankofa e Adílson Fontoura

    #paratodosverem: a imagem conta com os elementos visuais que compõem a identidade do FiliGram, são formas geométricas coloridas onde no topo está escrito COMISSÃO DE HOMENAGEM A OLIVEIRA SILVEIRA, em vermelho e, ao lado, a foto do autor. Distribuídas no card, há mais sete fotos, todas em formato circular com as respectivas legendas: Naiara Silveira, Ronald Augusto, Coletivo Sankofa, Ana dos Santos, Sátira Machado, Adílson Fontoura e Richard Serraria. No canto inferior direito está a logo do Festival.

    MULHERES ESCRITORAS COMPARTILHAM SEUS SABERES: UMA CONVERSA COM ANA DOS SANTOS E FUTHI NTSHINGILA

    Por Thaís Seganfredo

    O que é ser escritora nesses tempos difíceis que estamos vivendo? A escritora Carolina Panta abriu a mediação da mesa “África e Brasil: saberes femininos”, que aconteceu no cair da tarde deste domingo (04) com essa pergunta desafiadora. Na conversa, as escritoras falaram de conquistas históricas, oralidade e da importância matriarcal das mulheres na sociedade. Confira como foi a mesa, permeada por poemas de Ana dos Santos e por falas da sul-africana Futhi, que contou com tradução:

    Futhi Ntshingila: Não são tempos fáceis, principalmente para as mulheres e principalmente para as mulheres negras. Eu tento não esquecer que as mulheres que vieram antes de nós lutaram em tempos mais difíceis ainda do que nós estamos lidando agora. As mulheres das quais eu tiro inspiração são Maya angelou, Alice walker… Antes delas havia outras mulheres que lutaram em lutas mais difíceis.

    “Os homens que não amavam as mulheres diziam que amavam as mulheres. Mas matavam as mulheres. Sempre foi assim, mas nós não queremos mais morrer. Eu já morri 100 vezes, arrastada pelos cabelos, nas fogueiras da inquisição, nos campos de concentração (…)” – Ana dos Santos

    Conquistas e avanços

    Futhi: Eu quero acreditar que vai haver um tempo, mas chega a ser difícil ser otimista quando paramos pra olhar o que vem acontecendo. Esse poema que a Ana acabou de ler é um poema com o qual eu me identifico. É a história de mulheres do lugar de onde eu venho. Mas eu acredito que se nós vamos chegar a um ponto em que vamos poder cantar, precisamos ter primeiro pequenas vitórias, porque é pedacinho por pedacinho. No meu país, havia um tempo em que as mulheres não podiam se envolver. Teve um tempo perto de 1952, em que as mulheres tinham que andar longas distâncias para chegar até o parlamento e exigir seus direitos. Todo dia 09 de agosto na África do Sul, nós celebramos essa conquista das mulheres que foram até o parlamento e exigiram seus direitos. Naquele momento, era exigido que todas as pessoas negras tivessem carteiras de identidade e havia áreas em que elas eram restritas. No dia 9 de agosto, as mulheres colocaram fogo nas carteiras de identidade: “a partir de agora vocês vão nos tratar como seres humanos”. Temos agora mais de 50% de mulheres no parlamento e isso é alguma coisa. Em 1994, quando recuperamos nossa democracia, o nível de educação para as mulheres subiu. Esses são marcos que podemos apontar para chegar até essa área que estamos enxergando.

    Ana dos Santos: as mulheres negras sempre estão em coletivo, é assim que a gente trabalha até hoje. Nós perdemos muito na travessia do Atlântico, e quando penso nisso, lembro das mulheres da nossa família. Olhamos para trás e vemos afeto, carinho e força nessas mulheres. Ultimamente, tenho sentido entre as mulheres um lugar de carinho, de segurança e é muito bom ver tantas mulheres escritoras aqui hoje.

    Ancestralidade e afeto

    Futhi: a matriarca é a pessoa mais importante da família. Penso nas mulheres de casas domésticas no oeste da África. Eram elas que mandavam, governavam como rainhas. Então pra mim, principalmente as avós, são mais do que avós, elas trazem com elas toda uma sabedoria que é repassada para nós. Vou contar para vocês uma história da mãe da minha mãe. Ela cresceu como trabalhadora doméstica, tem um personagem no meu livro que fala disso e essa é a história da minha avó. Ela trabalhava na cozinha de pessoas brancas durante o apartheid. E ela tinha uma xícara diferente do que as outras pessoas usavam, uma xícara de chá. Ela devolveu a xícara, dizendo que não usa esse tipo de xícara de latão. E a mulher falou que era pra ela colocar açúcar mascavo no chá, o açúcar marrom. Ela disse que não gostava de açúcar mascavo [ e respondeu] “por que você mesma não coloca no seu chá?” São pequenas atitudes como esta que mostram a história. Ela tinha uma maneira de agir que por um lado era submissa, mas quando você via ela em casa, você via uma leoa. Minha avó não se denominava feminista, mas todo o comportamento dela mostrava que essas mulheres queriam igualdade. Elas tinham uma maneira própria de buscar isso. Elas buscavam seu caminho. Porque se houvesse alguma discordância na casa, a avó diria: não se preocupe com isso. No próximo dia, uma decisão ia ser tomada, de um modo que o homem acreditaria que ele é que tomou a decisão.

    “Você conhece alguma princesa negra? eu conheço e ela se chama Dandara. Está mais perto do que você imagina. Dandara é uma mulher que é dona de sua casa, pois no Brasil mais da metade das casas são chefiadas por mulheres. (…) Dandara é guerreira porque chove na sua horta e ela vai vender na feira. Dandara é princesa e também é rainha. Dandara é mãe e teve três filhos, mas criou sozinha, porque o negro rei foi pra Bahia. E lá ele é chamado de meu rei. (…) Dandara odeia os ismos, racismo, machismo, fascismo, também odeia regras porque não é preciso, ela não é obrigada a fazer transição, e usa seu cabelo liso” – Ana dos Santos


    QUESTIONANDO CÂNONES POÉTICOS

    Rafael Gloria

    No último dia do Festival Internacional Literário de Gramado, aconteceu uma das melhores mesas de todo o evento, intitulada Poesia e crítica contemporânea, com debates entre os poetas Ronald Augusto, Ana dos Santos e Marlon Ramos. O público, de início, era pequeno, mas foi enchendo conforme o tempo passava, lotando nas mais de uma hora de duração da mesa.

    Quem começou com a sua fala foi Ronald Augusto. Ele lembrou que o conceito de crítica ficou preso a uma ideia vaga de se falar negativamente sobre algo, mas é muito mais amplo, sendo um processo de análise, de reflexão. Ronald também comentou sobre o conceito de qualidade literária e como ele necessita de um debate mais aprofundado. “Hoje os critérios são outros e outras demandas são importantes”, fala. Ele diz que, por muito tempo, essa ideia foi usada para para afastar os escritores negros de grandes editoras, por exemplo. Ronald é também crítico com a ideia de que a arte salva, comum em alguns meios. “Essa possibilidade não é algo intrínseco ao processo criativo, nós associamos, mas não está na base da poesia um caráter salvacionista”, aponta. 

    Ana dos Santos lembra que os critérios de publicação, em sua grande maioria, sempre foram eurocêntricos e ligados a uma elite. “Acho muito importante os poemas que viraram clássicos, mas também é preciso questioná-los. Quando falamos em poesia canônica, quem é que vem à mente?”, diz. Ana acredita que a crítica negativa também pode ser interessante no sentido de construir outras perspectivas. Ela também é pesquisadora e atualmente faz doutorado em Letras na Ufrgs e vê a poesia como um lugar de liberdade, apontando que é preciso buscar outras referências para ir além do cânone, buscando uma maior diversidade de autoras e autores. 

    Marlon Pires diz que as referências musicais, para ele, vieram antes do que as literárias. “Neruda, por exemplo, veio para mim a partir do Emicida”, diz. Ele também cita o samba, o slam, Sérgio Vaz, Racionais, Rappin Hood. Marlon diz que começou escrevendo crônicas e que a música o ajudou a compreender que o seu tipo de texto era mais ritmado. “E então, eu fui achando um caminho de poesia possível, que pudesse abarcar um jeito de escrever, com afeto”, explica. Ele diz que no início a sua construção pensava nessa ideia do verso que abraçasse, mas para isso teve que passar pelo senso crítico de ouvir a galera que estava fazendo poesia na rua, no rap, samba, e também no cânone. 

    A mesa foi rica em discussão, porque trouxe diferentes visões sobre como cada um dos autores observa o fazer poético, a recepção da poesia e também a estética que buscam. Depois da conversa, os três leram alguns de seus poemas, sempre aplaudidos efusivamente  pelo público, bem receptivo. A poesia pode não salvar, mas ela tradicionalmente reúne as pessoas e foi isso que aconteceu neste último dia de evento.                                                     

    quinta-feira, 18 de agosto de 2022

     NOVO NORMAL??? DEPOIS DE 3 ANOS SEM PERFORMANCE PRESENCIAL!


    PERFORMANCE POÉTICA COM ANA DOS SANTOS SÁBADO NO MARGS
    Programa Público da exposição “Presença Negra no MARGS”
    Data: 09/07/2022
    Hora: 16:00 - 17:00
    Ana Dos Santos é professora de literatura e escritora. Mestra em Estudos Literários Aplicados – Letras/UFRGS. Tem três livros publicados: “Flor” (Corpos Editora, 2009), “Poerotisa” (Figura de Linguagem, 2019) e “Pequenos grandes lábios negros” (Venas Abiertas, 2020). Faz parte do catálogo “Intelectuais Negras Visíveis” (UFRJ). Ministra a oficina de escrita criativa “Mulher negra, Meu Corpo, Minha Voz”.
    AS PERFORMANCES
    Todas apresentações ocorrerão aos sábados, sempre às 16h:
    > 09.07.22: performance da professora de literatura e escritora Ana dos Santos. Classificação indicativa de 18 anos

    A Secretaria de Estado da Cultura do RS (Sedac), através do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), anuncia a realização de 4 performances poéticas como parte integrante do Programa Público da exposição “Presença Negra no MARGS”. 

    As apresentações ocorrerão em 4 sábados, sempre às 16h, tendo como lugar o próprio espaço expositivo da mostra coletiva em cartaz no MARGS 

    Para cada uma das performances, artistas foram convidados/as a realizar apresentações que dialoguem com uma obra em exibição, um eixo temático ou uma micronarrativa relacionados à exposição “Presença Negra no MARGS”.

    Ocupando todos os espaços expositivos do 1º andar do MARGS (Foyer, Pinacotecas, Salas Negras e Sala Aldo Locatelli), a grande mostra coletiva foi inaugurada em 14.05 e permanece em exibição até 21.08.2022. Visitação gratuita de terça a domingo, das 10h às 19h (último acesso às 18h30).

    Nossa coletânea completa 1 ano e vamos celebrar no Sopapo Poético, terça-feira às 19h no Teatro Renascença, entrada franca! Estaremos autografando nossos livros!

    A próxima edição do Sopapo Poético acontece no dia 26/07, terça-feira, celebrando o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e traz como convidadas Ana dos Santos, Carmen Lima, Delma Gonçalves, Fátima Farias, Lilian Rocha e Taiasmin Ohmancht, que integram o coletivo de escritoras negras "As Amanaãs". O sarau será realizado no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (saguão do Teatro Renascença), Av. Érico Veríssimo, 307, Bairro Menino Deus, Porto Alegre/RS.

    O sarau SOPAPO POÉTICO é promovido pela ANdC (Associação Negra de Cultura) desde 2012. A exemplo de outros saraus afro-brasileiros, o encontro evoca o protagonismo negro, em uma roda de atuações, reflexões e de convivências afrocentradas, reunindo artistas, pensadores e simpatizantes da cultura negra de resistência.

    AS AMANAÃS
    Formado por Ana dos Santos, Carmen Lima, Delma Gonçalves, Fátima Farias, Lilian Rocha e Taiasmin Ohmancht, o coletivo de escritoras negras "As Amanaãs" comemora um ano de lançamento do seu primeiro livro "Travessias de Amanaã", publicado pela editora Libretos em julho de 2021. A obra reúne textos, poemas e reflexões das seis autoras negras, numa construção inspirada em suas vivências e trajetórias. No prefácio, a professora Rudiléia Neves reconhece nas autoras a escrita se fazendo tão necessária quanto o ato de respirar. "As seis escritoras, que também desempenham outras funções no dia a dia (não há uma só jornada para as mulheres) e que se entregam ao gozo – ou sofrimento? – do ato de escrever, neste livro falam do que e de quem precisa ser dito. Falam do que e de quem foi/é renegado. Falam do que e de quem foi/é esquecido. Falam de amor, de autoamor. Falam de alegrias e de dores”.

    AFOXÉS ÀS YABAS
    Participa da abertura do evento o Grupo Afoxé às Yabás, formado por mulheres, capoeiristas, dançarinas, ativistas e musicistas, que buscam a sonoridade e o ritmo percursivo do afoxé através da dança e do canto.

    SOPAPINHO
    Com a proposta de desenvolver o interesse pela cultura e pela poesia nos pequenos, o Sopapinho é um momento de fortalecimento da identidade étnica e da autoestima das crianças negras. As atividades do Sopapinho, paralelas ao sarau, envolvem brincadeiras, artes visuais, canto, contação de histórias e a participação na roda de poesia.

    FEIRA AFRO
    A Feira Afro acompanha e apoia o Sopapo Poético desde suas primeiras edições, fortalecendo o espírito comunitário do sarau. A diversidade de produtos e estilos é sua característica, reunindo afro-empreendedores e artesãos, com produção voltada para a identidade étnica. Artesanato, alimentação, literatura, estética cultural, vestuário, cosméticos naturais, música - e muito mais - são opções da feira para o eclético público sopapeiro.

    CINE KAFUNÉ
    Antecedendo o sarau, o Cine Kafuné projeta no telão vídeos clipes e documentários com foco na cultura negra.

    SOPAPO POÉTICO - Ponto Negro da Poesia
    Edição de julho de 2022
    Convidadas: As Amanaãs
    Abertura: Afoxe às Yabas
    Quando: terça-feira, 26 de julho, às 19h30min
    Onde: Centro Municipal de Cultura
    Av. Érico Veríssimo, 307, Bairro Menino Deus, Porto Alegre/RS
    ENTRADA FRANCA

    Contatos:
    sopapo.poetico@gmail.com
    (51) 99317-6497 – 99218-5449

    Realização:
    Associação Negra de Cultura – ANdC

    Apoios:
    Prefeitura Municipal de Porto Alegre - Secretária de Cultura
    Cine Kafuné
    Silvia Abreu Consultoria Integrada de Marketing
    Feijão & Lentilha Photography
    Fábio Ferreira – designer gráfico

    Sou a escritora convidada do Sarau da Diversidade do Clube do Professor Gaúcho! Estarei com os meus livros também, compareçam!
    Gosta de música? De cultura, de lazer e de quitutes? Dos eventos do CPG? Então veeeem, que o nosso sarau vai estar um arraso! Encontro marcado neste sábado, à tarde, no Salão da Figueira. E parabéns, de antemão, a este Coral lindo por seus 27 anos! Viva!


    terça-feira, 28 de junho de 2022

    FOTO HISTÓRICA DAS ESCRITORAS DE PORTO ALEGRE

    Márcia Prado (@marciapradofoto) da Oblíquo Imagens (@obliquoimagens).

    Na tarde do último sábado e na manhã deste domingo, autoras de diversas cidades do Brasil se reuniram para o que chamaram de "fotos históricas de escritoras brasileiras". Inspiradas na imagem “Um grande dia no Harlem”, feita por Art Kane em Nova York, em 1958, as imagens tiveram a presença mulheres com publicações tradicionais ou independentes, analógica ou digital. (O Globo 11/06)


     2ª BLACK BIENAL BRAZIL ART


    oficina "Mulher Negra, Meu Corpo, Minha Voz" dentro da programação da 2ª Bienal Black Brazil Art.
    Essas oficinas têm acontecido via google meet e se faz necessário que o público faça uma inscrição via formulário que se encontra tanto em nossa BIO no instagram como também no site da Bienal Black.
    O encontro tem duração de 1h00 a 1h30 - o link para essa conexão é encaminhado um dia antes via convite do Google Meet e também por email.
    A programação completa você acessa no site 👉



    LEIA MULHERES ALEGRETE

    Olha eu de novo no Leia Mulheres Alegrete!!! ELAS, antologia poética de 2017, Edições do Tietê de São Paulo, com poemeus e de Benette Bacellar, Lilian Rocha, Marah Mendes, Rosinha Morais, Neli Germano e outras mulheres incríveis!
    @leiamulheresalegrete